A reforma tributária brasileira, considerada uma das mais profundas transformações no sistema fiscal do país desde a redemocratização, começa a revelar seus primeiros desafios práticos. Em Mato Grosso do Sul, uma pesquisa nacional conduzida pela consultoria V360 acendeu um alerta vermelho: 72% das empresas do comércio local não estão preparadas para as mudanças que entram em vigor a partir de 2026. O dado, que expõe a fragilidade do tecido empresarial sul-mato-grossense diante da maior reforma fiscal em décadas, motivou entidades representativas do setor a organizarem ações de emergência para evitar o que especialistas já denominam “apagão fiscal”.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso do Sul (Fecomércio-MS) e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Campo Grande tomaram a dianteira nesse processo de conscientização e preparação. Em resposta aos números alarmantes, as entidades organizaram um seminário gratuito reunindo alguns dos principais especialistas do país em direito tributário, economia e análise política para debater os impactos específicos da reforma sobre o comércio estadual. O evento, com transmissão ao vivo pelo YouTube, representa mais do que um encontro técnico: simboliza o reconhecimento de que o tempo para adaptação está se esgotando rapidamente.
A magnitude do desafio transcende as fronteiras de Mato Grosso do Sul. A reforma tributária, aprovada pelo Congresso Nacional após mais de três décadas de debates, propõe unificar cinco tributos distintos em apenas dois impostos sobre valor agregado: o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Essa consolidação, embora prometa simplificar um sistema notoriamente complexo, exige uma reengenharia completa dos processos contábeis, fiscais e operacionais das empresas brasileiras. Para o comércio, setor que movimenta milhões em transações diárias e emprega uma parcela significativa da população economicamente ativa, a transição representa um divisor de águas.
O Diagnóstico da Despreparação Empresarial
Os 72% de empresas despreparadas identificados pela pesquisa da V360 revelam um problema sistêmico que vai muito além da simples falta de informação. A pesquisa nacional expõe que a maioria dos empresários sul-mato-grossenses ainda não compreende plenamente como as novas alíquotas impactarão sua estrutura de custos, competitividade e margens de lucro. Muitos sequer iniciaram o mapeamento de seus processos internos para identificar os pontos críticos que precisarão ser ajustados.
Diante desse cenário preocupante, a CDL Campo Grande, em parceria com a Fecomércio-MS, passou a oferecer um diagnóstico gratuito das operações para seus associados. O serviço não se limita a uma consultoria superficial: inclui simulações detalhadas do impacto das novas alíquotas sobre cada tipo de operação comercial, identificação de riscos específicos e elaboração de estratégias de transição. A iniciativa reconhece que o tempo de preparação não é mais medido em anos, mas em meses, e que a janela de oportunidade para adaptação sem traumas está se fechando.
O conceito de “apagão fiscal”, termo que ganhou força entre especialistas tributários, descreve precisamente o risco que paira sobre milhares de estabelecimentos comerciais. Empresas que não se adaptarem adequadamente ao novo sistema poderão enfrentar desde problemas de fluxo de caixa até questões de conformidade fiscal que podem resultar em autuações, multas e, em casos extremos, inviabilidade operacional. O varejo, com suas características de alto volume e baixa margem, mostra-se particularmente vulnerável a qualquer deslize na transição.
O Papel Estratégico do Setor de Comércio e Serviços
Mato Grosso do Sul possui uma economia fortemente ancorada no comércio e nos serviços, setores que respondem por uma parcela expressiva do PIB estadual e da geração de empregos formais. Campo Grande, a capital, funciona como polo comercial não apenas para o estado, mas também como corredor estratégico no eixo de integração com Paraguai e Bolívia. Essa posição geográfica e econômica torna ainda mais crítico o processo de adaptação à reforma tributária.
O seminário organizado pela Fecomércio-MS trouxe ao debate especialistas com diferentes perspectivas sobre o fenômeno. Rafael Pandolfo, especialista em Direito Tributário, integrou a programação para destrinchar os aspectos jurídicos da nova legislação, especialmente as mudanças nos mecanismos de apuração e recolhimento dos tributos. O desembargador Ary Raghiant contribuiu com a visão do Judiciário sobre as inevitáveis controvérsias que surgirão durante o período de transição. Maria Clara Vilasboas, cientista política, abordou os desdobramentos das articulações políticas que moldaram o texto final da reforma, enquanto Fabio Bentes, economista, focou nos impactos macroeconômicos e microeconômicos sobre o ambiente de negócios.
Essa abordagem multidisciplinar revela a complexidade do tema. A reforma tributária não é apenas uma questão contábil ou fiscal; ela atravessa dimensões jurídicas, políticas, econômicas e operacionais. Para o empresário do varejo, isso significa que a preparação não pode se limitar a treinar o contador ou atualizar o sistema de gestão. É necessário repensar estratégias de precificação, revisar contratos com fornecedores, avaliar a viabilidade de diferentes modelos de negócio e até reconsiderar a localização de operações.
As Particularidades do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
O setor de comércio e serviços apresenta particularidades que tornam a adaptação à reforma tributária especialmente desafiadora. No comércio de bens, a nova sistemática de creditamento e débito dos tributos sobre valor agregado exigirá um controle muito mais rigoroso de toda a cadeia de fornecimento. Diferentemente do sistema atual, onde o ICMS muitas vezes permanece como custo embutido ao longo da cadeia, o novo modelo promete permitir a recuperação integral dos créditos tributários, mas apenas para quem tiver processos impecáveis de documentação e controle.
Para o setor de serviços, tradicionalmente tributado pelo ISS municipal, a transição para o IBS representará uma mudança cultural profunda. A maioria dos prestadores de serviços em Mato Grosso do Sul são pequenos e médios negócios que desenvolveram seus processos fiscais em torno de uma lógica completamente diferente. A adaptação exigirá não apenas investimentos em tecnologia e capacitação, mas também uma nova mentalidade em relação à gestão tributária.
O turismo, setor estratégico para Mato Grosso do Sul com seu potencial ecoturístico no Pantanal e em Bonito, enfrenta desafios adicionais. A atividade turística envolve uma cadeia complexa que inclui hospedagem, alimentação, transporte, entretenimento e comércio de souvenirs. Cada elo dessa cadeia será afetado de forma diferente pela reforma, e a competitividade dos destinos turísticos sul-mato-grossenses dependerá da capacidade de toda a cadeia se adaptar de forma coordenada.
A Questão do Tempo e da Capacitação
Um dos pontos mais críticos destacados no seminário da Fecomércio-MS diz respeito ao fator tempo. Embora a vigência plena do novo sistema tributário esteja prevista para alguns anos à frente, com um período de transição começando em 2026, a preparação efetiva deveria ter iniciado há tempos. Os especialistas alertam que empresas que começarem a se preparar apenas às vésperas da implementação enfrentarão custos significativamente mais altos e riscos de interrupções operacionais.
A capacitação de recursos humanos emerge como um dos gargalos mais severos. Contadores, gestores financeiros, compradores e até vendedores precisarão entender os fundamentos do novo sistema para tomarem decisões corretas no dia a dia. A oferta de cursos e treinamentos específicos sobre a reforma tributária ainda é limitada, especialmente quando se trata de aplicações práticas para diferentes segmentos do comércio.
As empresas de tecnologia que desenvolvem sistemas de gestão empresarial (ERPs) também precisam adaptar seus produtos. No entanto, muitas das especificações técnicas finais ainda dependem de regulamentações complementares que estão sendo elaboradas pela Receita Federal e pelos estados. Essa indefinição cria um dilema: as empresas precisam começar a se preparar, mas algumas das ferramentas e informações necessárias ainda não estão completamente disponíveis.
Impactos na Competitividade e Estrutura de Custos
Uma preocupação central manifestada pelos empresários sul-mato-grossenses refere-se ao impacto da reforma sobre a competitividade. Mato Grosso do Sul compete com estados vizinhos pela atração de investimentos e pela manutenção de empresas em seu território. Durante décadas, a guerra fiscal entre estados foi uma realidade, com governos utilizando incentivos de ICMS como ferramenta de atração de negócios. A reforma tributária, ao unificar a tributação e estabelecer regras nacionais, teoricamente elimina essa possibilidade.
Para alguns setores, isso representa uma ameaça. Empresas que se instalaram em Mato Grosso do Sul atraídas por incentivos fiscais específicos precisarão reavaliar suas operações. Por outro lado, negócios que sempre operaram em desvantagem competitiva devido à guerra fiscal podem finalmente encontrar um campo mais equilibrado de disputa.
A estrutura de custos do varejo sul-mato-grossense também passará por transformações significativas. Atualmente, diversos tributos se acumulam ao longo da cadeia produtiva de forma não transparente, criando o fenômeno conhecido como “tributação em cascata”. O novo sistema, ao permitir o creditamento integral em cada etapa, promete maior eficiência. No entanto, a transição pode revelar que alguns modelos de negócio que pareciam viáveis sob o sistema antigo eram, na verdade, subsidiados por ineficiências tributárias.
Perspectivas e Caminhos para a Adaptação
A iniciativa da Fecomércio-MS e da CDL Campo Grande de promover eventos informativos e oferecer diagnósticos gratuitos representa um caminho importante, mas insuficiente por si só. A magnitude do desafio exige um esforço coordenado envolvendo múltiplos atores: entidades empresariais, governo estadual, instituições de ensino, empresas de tecnologia e escritórios de contabilidade.
Algumas estratégias práticas começam a emergir entre os empresários mais proativos. A formação de grupos de estudo setoriais, onde empresas do mesmo ramo compartilham experiências e soluções, tem se mostrado eficaz. A contratação antecipada de consultorias especializadas, embora represente um custo no curto prazo, pode evitar prejuízos muito maiores durante a transição. O investimento em modernização de sistemas de gestão, priorizando plataformas que já estejam se adaptando à reforma, também figura entre as medidas recomendadas.
O governo estadual, por sua vez, tem um papel fundamental a desempenhar. Além de participar da regulamentação complementar da reforma, pode criar programas de apoio específicos para pequenas e médias empresas, segmento que concentra a maior parte da despreparação identificada na pesquisa. Linhas de crédito facilitado para investimentos em tecnologia e capacitação, por exemplo, poderiam acelerar significativamente o processo de adaptação.
A reforma tributária brasileira representa, simultaneamente, um desafio imenso e uma oportunidade histórica de modernização. Para Mato Grosso do Sul, com sua economia fortemente ancorada no comércio e serviços, o momento é de mobilização. Os dados revelam que a maioria das empresas ainda não está pronta, mas também mostram que há consciência do problema e vontade de agir.
O sucesso dessa transição determinará não apenas a sobrevivência de milhares de negócios, mas também o futuro econômico do estado. Empresas que navegarem bem por essa transformação estarão posicionadas para prosperar em um ambiente tributário mais racional e transparente. Aquelas que permanecerem na inércia, porém, correm o risco de se tornarem estatísticas do “apagão fiscal” que especialistas tanto temem. A janela de preparação ainda está aberta, mas está se fechando rapidamente. A hora de agir é agora.





