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Só 1% das Empresas Tem TI Pronta para a Reforma Tributária

O apagão digital da reforma tributária: por que as empresas brasileiras estão despreparadas para a maior mudança fiscal em décadas

A Reforma Tributária aprovada pelo Congresso Nacional representa a mais profunda transformação do sistema fiscal brasileiro em mais de três décadas. Com a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto Seletivo (IS), o país avança para um modelo de tributação sobre o consumo inspirado nos padrões internacionais de IVA. No papel, a mudança é bem-vinda. Na prática, porém, há um problema silencioso e urgente: a infraestrutura tecnológica da esmagadora maioria das empresas brasileiras simplesmente não está pronta para suportar essa transição. E os números que comprovam essa afirmação são alarmantes.

Três pesquisas independentes, conduzidas por Roit, PwC Brasil e EY Brasil, convergem para um diagnóstico que deveria ocupar salas de reunião em conselhos de administração, mas que ainda enfrenta uma perigosa inércia corporativa. Apenas 1% das grandes empresas considera sua infraestrutura de TI totalmente preparada para a Reforma Tributária. Somente 9% estão de fato ajustando seus sistemas. E a maturidade sistêmica média das empresas brasileiras, numa escala de 1 a 5, está em apenas 1,6. São dados que pintam um retrato desconfortável: o Brasil corporativo está caminhando para uma das maiores viradas fiscais da história com os sistemas ainda no ponto de partida.

O abismo entre diagnóstico e ação

A pesquisa da PwC Brasil, intitulada “Tributos no centro: caminhos para a reinvenção”, traz uma constatação que resume com precisão o estágio atual das empresas: quase 70% delas já iniciaram algum tipo de diagnóstico de seus sistemas de ERP e soluções fiscais para avaliar a prontidão tecnológica para as adequações exigidas pela reforma. À primeira vista, o número parece animador. Mas a análise mais detalhada revela o tamanho do abismo entre intenção e execução.

Do total de empresas que iniciaram o diagnóstico, apenas 9% concluíram o processo e estão efetivamente ajustando seus sistemas. Outros 10% concluíram o diagnóstico, mas ainda estão na fase de planejamento dos ajustes. Cerca de 32% estão em andamento em estágio avançado, enquanto 37% ainda se encontram em estágio inicial. Em outras palavras: a maior parte das empresas sabe que tem um problema, mas ainda não colocou as mãos na massa para resolvê-lo.

Para especialistas em gestão fiscal e tecnologia, esse intervalo entre o reconhecimento do problema e a ação concreta é exatamente onde residem os maiores riscos operacionais. “Diagnosticar e implementar são etapas completamente diferentes em termos de complexidade, custo e tempo. Muitas empresas subestimam o tamanho do trabalho que vem depois do diagnóstico”, afirma um especialista em transformação digital tributária. Adaptar sistemas de ERP para lidar com novos tributos, novas obrigações acessórias, novos campos na Nota Fiscal Eletrônica e novos fluxos de apuração não é uma atualização de rotina. É uma reprogramação estrutural.

Apenas 1% está pronto: o dado que expõe a fragilidade do setor

Se a pesquisa da PwC revela a distância entre quem diagnosticou e quem agiu, a pesquisa da Roit vai ainda mais fundo ao expor a realidade daqueles que efetivamente concluíram o processo de adaptação. O levantamento aponta que apenas 1% das grandes empresas considera sua infraestrutura de TI totalmente preparada para a Reforma Tributária, incluindo a capacidade de conviver simultaneamente com o sistema tributário atual e o novo modelo durante o longo período de transição previsto em lei.

Esse dado é especialmente relevante quando se considera o contexto da duplicidade de regimes. A reforma não representa uma virada instantânea de um modelo para outro. O período de transição, que se estende até 2033, exigirá que as empresas operem em paralelo com as regras atuais de ICMS, PIS, Cofins, IPI e ISS, ao mesmo tempo em que incorporam gradualmente o IBS, a CBS e o Imposto Seletivo. Para os sistemas de TI, essa convivência simultânea representa um desafio técnico de enorme proporção: os ERPs precisarão calcular, registrar, escriturar e transmitir obrigações em dois regimes distintos, com regras diferentes, prazos diferentes e alíquotas diferentes.

A pesquisa da Roit também revela que cerca de 40% das empresas ainda estão apenas em fase de planejamento. E um dado particularmente preocupante: aproximadamente 27% declaram que a TI está despreparada ou que o tema sequer entrou na pauta das discussões internas. Num contexto em que os prazos da reforma já estão em curso e as primeiras obrigações práticas se aproximam no horizonte regulatório, essa parcela representa um risco sistêmico considerável para cadeias produtivas inteiras.

Maturidade sistêmica em nível crítico, segundo a EY

A pesquisa da EY Brasil sobre maturidade empresarial frente à Reforma Tributária acrescenta uma camada adicional de preocupação ao cenário. O estudo avalia as empresas em três dimensões principais: Negócios, Projeções Financeiras e Sistêmico. Esta última engloba exatamente os aspectos mais críticos para a infraestrutura tecnológica: o mapeamento das operações sujeitas aos novos tributos, o desenvolvimento de plano de transição sistêmico com testes internos de homologação, o saneamento de cadastros de mercadorias, clientes e fornecedores, e o mapeamento dos novos requerimentos da Nota Fiscal Eletrônica.

O resultado é contundente: a média geral de maturidade, em uma escala que vai de 1 (não iniciado) a 5 (concluído), está em apenas 1,6. E a dimensão sistêmica, que é justamente a que envolve TI, ERPs e integrações fiscais, está entre as mais defasadas. Praticamente todos os indicadores sistêmicos ficam abaixo de 2 pontos na escala de 5, posicionando as empresas brasileiras entre os estágios de “não iniciado” e “início de preparação”.

O que esse número representa na prática? Significa que a maioria das empresas ainda não mapeou quais de suas operações estarão sujeitas aos novos tributos. Não desenvolveu um plano estruturado de transição sistêmica. Não realizou testes de homologação. Não saneou seus cadastros. E não mapeou os novos campos e requerimentos que serão exigidos na NF-e. São lacunas que, se não endereçadas com urgência, podem gerar desde erros no cálculo e recolhimento dos novos tributos até a emissão de documentos fiscais inválidos e penalidades por descumprimento de obrigações acessórias.

A raiz do problema: o divórcio entre TI e Fiscal

Por que tantas empresas estão tão atrasadas numa reforma que foi aprovada e cujo cronograma de implementação é público? Os especialistas apontam para um problema estrutural que transcende a reforma em si: o histórico isolamento entre as áreas de TI e Fiscal dentro das organizações brasileiras.

Durante décadas, a complexidade do sistema tributário nacional foi gerida quase que exclusivamente pelas equipes de contabilidade e tributário, com a TI atuando de forma reativa, apenas para dar suporte técnico às demandas que chegavam prontas do departamento fiscal. Esse modelo funcionou — com seus percalços — num ambiente de relativa estabilidade normativa. Mas a Reforma Tributária exige exatamente o oposto: uma integração profunda, simultânea e estratégica entre as duas áreas desde o início do processo de adequação.

As decisões sobre como o IBS e a CBS serão apurados, como o crédito será aproveitado, como os novos campos da NF-e serão preenchidos e como o Imposto Seletivo incidirá sobre determinadas operações não são apenas decisões fiscais. São decisões que impactam diretamente a arquitetura dos sistemas, os fluxos de dados, as integrações entre módulos do ERP e as regras de negócio programadas nos sistemas de gestão. Sem uma mesa comum entre TI e Fiscal, as empresas correm o risco de implementar soluções tecnicamente corretas, mas fiscalmente inadequadas, ou vice-versa.

Os riscos de chegar atrasado à virada do sistema

O cronograma da Reforma Tributária não espera por ERPs desatualizados. A estrutura regulatória está em plena construção, com o Comitê Gestor do IBS e a Receita Federal trabalhando na regulamentação de centenas de pontos ainda pendentes. Mas os marcos práticos já estão definidos, e as empresas que não estiverem com seus sistemas adaptados nos momentos críticos enfrentarão consequências concretas.

Entre os principais riscos operacionais estão a incapacidade de calcular corretamente as alíquotas dos novos tributos, especialmente em operações que envolvem regimes diferenciados, benefícios fiscais específicos ou a aplicação do Imposto Seletivo. Há também o risco de falhas na apuração e aproveitamento de créditos no modelo de IVA dual, que é estruturalmente diferente do sistema atual de créditos de PIS/Cofins e ICMS. Erros nessa frente podem resultar em pagamento a maior de tributos ou, no sentido oposto, em autuações por aproveitamento indevido.

Outro ponto de atenção é a capacidade dos sistemas de gerar as novas obrigações acessórias que serão exigidas pelo fisco. A NF-e, já onipresente nas operações comerciais, passará por mudanças significativas em seus campos e validações. Sistemas que não forem atualizados a tempo simplesmente não conseguirão emitir documentos fiscais válidos, o que, na prática, significa a paralisia das operações comerciais.

O que as empresas precisam fazer agora

Diante do diagnóstico alarmante, a pergunta inevitável é: por onde começar? Os especialistas são unânimes em apontar que o primeiro passo é justamente o que muitas empresas ainda não fizeram — sentar TI e Fiscal na mesma mesa para uma avaliação conjunta do estágio atual dos sistemas e do trabalho necessário para adequá-los.

Esse diagnóstico integrado deve cobrir pelo menos quatro frentes. A primeira é o mapeamento das operações: identificar quais produtos, serviços e atividades da empresa serão alcançados pelos novos tributos e em quais regimes se enquadrarão. A segunda é a avaliação do ERP: verificar se o fornecedor do sistema já tem um roadmap de atualização para a Reforma Tributária e em que estágio esse desenvolvimento se encontra. A terceira é o saneamento de cadastros: garantir que os cadastros de produtos, clientes, fornecedores e centros de custo estejam completos, corretos e enriquecidos com as classificações fiscais necessárias para a correta aplicação das regras dos novos tributos. A quarta é o planejamento de testes: definir quando e como serão realizados os testes de homologação dos sistemas antes de cada marco de implementação da reforma.

Além dessas frentes internas, as empresas precisam acompanhar de perto o desenvolvimento da regulamentação complementar. Muitas das regras que definirão o funcionamento prático do IBS, da CBS e do Imposto Seletivo ainda estão sendo construídas pelo Comitê Gestor e pela Receita Federal. As empresas que não tiverem estruturas de monitoramento regulatório ativas correm o risco de ser surpreendidas por mudanças que impactam diretamente suas parametrizações de sistema.

Uma janela que se fecha

O tempo disponível para a adequação tecnológica à Reforma Tributária não é ilimitado. O período de transição pode parecer longo no horizonte, mas a experiência com outras grandes mudanças fiscais no Brasil, como a implantação da Nota Fiscal Eletrônica e do SPED, mostrou que o prazo real de adaptação dos sistemas é sempre menor do que o prazo regulatório, porque os fornecedores de ERP precisam de tempo para desenvolver, testar e liberar as atualizações, e as empresas precisam de tempo adicional para parametrizar, testar e homologar as soluções em seus ambientes.

Com apenas 1% das grandes empresas declarando TI totalmente pronta, 9% em fase de ajuste efetivo e uma maturidade sistêmica média de 1,6 em 5, o Brasil corporativo está olhando para a maior reforma tributária de sua história moderno com sistemas que, em sua maioria, ainda não começaram a se adaptar. O custo dessa inércia, medido em riscos operacionais, penalidades fiscais e perda de competitividade, pode ser muito maior do que o investimento necessário para agir agora. A janela ainda está aberta. Mas ela não ficará assim para sempre.

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  • September 2, 2026
  • 4:44 pm
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