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Reforma Tributária 2026 como 60% das empresas estão em risco

O maior desafio não é o novo sistema — é conviver com os dois ao mesmo tempo

A Reforma Tributária brasileira já tem data de início, legislação aprovada e cronograma definido. O que falta, segundo três pesquisas independentes publicadas em 2026, é preparo por parte de uma parcela expressiva das empresas que operam no país. Levantamentos conduzidos pela Deloitte, pela KPMG e por pesquisadores ouvidos pelo blog “Que Imposto é Esse?”, da Folha de S.Paulo, convergem para um diagnóstico inquietante: a transição tributária que se estende de 2026 a 2033 expõe dezenas de milhares de empresas a riscos financeiros, operacionais e jurídicos que ainda não foram devidamente mapeados internamente.

O período de convivência entre o sistema tributário atual e o novo modelo — baseado na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) — é, tecnicamente, o trecho mais perigoso da travessia. Durante sete anos, empresas terão de apurar, declarar e recolher tributos segundo regras que coexistem de forma simultânea, com alíquotas, bases de cálculo e obrigações acessórias distintas para cada regime. Para quem não se preparou, o risco não é teórico. É financeiro, operacional e, em alguns casos, existencial.

Quase 60% das empresas temem o que ainda está por vir

A pesquisa Tax do Amanhã, realizada pela Deloitte em 2026, é possivelmente o retrato mais revelador do estado de alerta do empresariado brasileiro diante da reforma. O levantamento identificou que quase 60% dos participantes apontaram a gestão simultânea dos sistemas tributários antigo e novo como a principal preocupação relacionada à transição. O número não surpreende especialistas, mas impressiona pela escala: significa que, entre as empresas ouvidas, a maioria absoluta está mais preocupada com o período de convivência entre os regimes do que com qualquer outro aspecto da mudança — incluindo o impacto nos preços, nas margens ou na competitividade setorial.

A pesquisa da Deloitte também aponta que as empresas têm consciência de que a transição vai exigir adaptações profundas em precificação e operação. A substituição gradual de tributos como PIS, Cofins, ISS, ICMS e IPI pelos novos CBS e IBS não ocorre de forma linear nem simultânea em todos os setores. Há regimes diferenciados, exceções setoriais, alíquotas específicas e prazos distintos para categorias de contribuintes. Gerir esse mosaico de obrigações em paralelo exige estrutura, tecnologia e, sobretudo, planejamento — três recursos que, segundo os dados disponíveis, ainda escasseiam em boa parte do tecido empresarial brasileiro.

O que torna a situação ainda mais complexa é a natureza do problema. Não se trata apenas de aprender um sistema novo. Trata-se de operar dois sistemas com lógicas diferentes ao mesmo tempo, sem que um cancele o outro. Para os departamentos fiscal e contábil das empresas, isso significa duplicar processos, cruzar bases de dados distintas, treinar equipes para duas realidades simultâneas e garantir conformidade em dois regimes que, em muitos pontos, seguem regras contraditórias entre si.

Um em cada quatro não sabe o impacto no próprio caixa

Se a pesquisa da Deloitte revela a extensão da preocupação, o levantamento publicado pelo blog “Que Imposto é Esse?”, da Folha de S.Paulo, em 2026, vai um passo além e quantifica o despreparo de forma ainda mais direta. Segundo os dados apurados, 24% das empresas ainda não realizaram qualquer simulação dos efeitos financeiros da Reforma Tributária sobre seus negócios. Em outras palavras, um em cada quatro participantes do levantamento chegou ao início efetivo da transição sem saber, ao menos em termos estimados, quanto vai pagar a mais ou a menos, se terá de ajustar preços, se haverá impacto na margem bruta ou se enfrentará problemas de capital de giro durante o processo.

Esse dado é especialmente preocupante porque 2026 não é mais um horizonte distante. É o presente. A CBS já começa a produzir efeitos concretos, e o cronograma de elevação gradual das alíquotas do IBS está em curso. Empresas que ainda não simularam cenários estão, na prática, navegando sem mapa em um território que muda de configuração a cada ano. A ausência de simulação não é apenas um problema de planejamento interno — é um risco direto para a sustentabilidade financeira do negócio.

A lógica é simples: sem saber o impacto da reforma sobre a carga tributária efetiva, uma empresa não consegue precificar corretamente seus produtos e serviços, não consegue negociar contratos com cláusulas de reequilíbrio adequadas, não consegue dimensionar sua necessidade de capital de giro para o período de transição e não consegue tomar decisões estratégicas — como investimentos, expansões ou reduções de quadro — com base em premissas financeiras confiáveis. O custo da omissão, neste caso, pode ser medido em margens perdidas, contratos deficitários e, no limite, em insolvência.

KPMG mapeia fragilidades em 35 empresas avaliadas

A pesquisa Reforma Tributária do Consumo, conduzida pela KPMG em 2026, oferece uma dimensão mais operacional do problema. O levantamento, que ouviu 35 empresas para avaliar o estágio de preparação para as mudanças, identificou fragilidades generalizadas em três áreas críticas: processos internos, sistemas de tecnologia e conformidade regulatória. As três, não por acaso, são exatamente as áreas mais afetadas pela necessidade de operar com regras antigas e novas em paralelo durante o longo período de transição.

No campo dos processos, a KPMG identificou que muitas organizações ainda não redesenharam seus fluxos de apuração fiscal para comportar a lógica dos novos tributos. A CBS, que substituirá o PIS e a Cofins no âmbito federal, e o IBS, que unificará ICMS e ISS nas esferas estadual e municipal, seguem uma lógica de não cumulatividade plena que difere substancialmente dos regimes atuais. Adaptar os processos de apuração, confronto de créditos e escrituração fiscal a essa nova lógica, sem abandonar os processos existentes durante a transição, exige um esforço de redesenho que a maioria das empresas avaliadas ainda não concluiu — e, em alguns casos, nem iniciou.

No campo da tecnologia, o desafio é ainda mais tangível. Os sistemas de ERP e de gestão fiscal que as empresas utilizam hoje foram desenvolvidos para atender às regras do modelo atual. A inclusão dos novos tributos exige atualizações profundas, muitas vezes incompatíveis com as versões existentes, e a integração com os novos sistemas de escrituração e apuração que o fisco federal e os fiscos estaduais estão desenvolvendo para o período de transição. Para empresas de menor porte, que dependem de fornecedores externos de software, a espera por atualizações adequadas pode se traduzir em risco de não conformidade nos primeiros meses de vigência das novas obrigações.

A conformidade, por sua vez, é o ponto de convergência dos dois problemas anteriores. Uma empresa com processos desatualizados e sistemas inadequados está, quase inevitavelmente, sujeita a erros de apuração, inconsistências nas declarações e, consequentemente, à atenção do fisco. Em um ambiente de transição em que as próprias autoridades tributárias ainda estão finalizando regulamentações e sistemas de controle, o risco de autuações e penalidades por falhas na adaptação é real e não pode ser descartado.

O risco sistêmico que ninguém quer nomear

Consideradas em conjunto, as três pesquisas constroem um quadro que vai além do desafio individual de cada empresa. O que os dados revelam é um risco de natureza sistêmica: se uma parcela expressiva das empresas brasileiras chega ao período de transição sem preparo adequado, os efeitos se espalham por toda a cadeia produtiva. Fornecedores que precificam errado contaminam as margens de seus clientes. Empresas que enfrentam autuações por erros de conformidade têm sua liquidez comprometida. Setores inteiros que não simularam o impacto da reforma podem ser surpreendidos por distorções competitivas que vantagem quem se preparou em detrimento de quem não se preparou.

Há também uma dimensão política e regulatória no problema. A Reforma Tributária foi desenhada, entre outros objetivos, para simplificar o sistema, reduzir o custo de conformidade e aumentar a eficiência econômica. Mas esses benefícios são, em grande medida, de longo prazo. No curto e médio prazo — exatamente o período da transição — o custo de adaptação pode ser significativo, especialmente para empresas que não se planejaram com antecedência. A percepção de que a reforma é, ao mesmo tempo, necessária e dolorosa não é contraditória. É simplesmente o retrato de uma mudança estrutural de grande magnitude sendo implementada em uma economia complexa e diversificada.

O que as empresas precisam fazer agora

Diante do cenário mapeado pelas três pesquisas, a mensagem para o empresariado brasileiro é inequívoca: o tempo de esperar para ver acabou. O período de transição já começou, e cada mês sem planejamento adequado é um mês de exposição a riscos que poderiam ser mitigados com ação concreta. As frentes prioritárias são claras.

A primeira e mais urgente é a simulação de cenários financeiros. Toda empresa que ainda não calculou o impacto da reforma sobre sua carga tributária efetiva — considerando as alíquotas progressivas do IBS, a nova lógica de creditamento da CBS e os regimes diferenciados de seu setor — precisa fazer isso imediatamente. A simulação não precisa ser perfeita, porque as regras ainda estão sendo regulamentadas em alguns aspectos. Mas uma estimativa fundamentada é infinitamente superior a nenhuma estimativa. É ela que vai orientar decisões de precificação, negociação de contratos e gestão de capital de giro nos próximos anos.

A segunda frente é o redesenho de processos internos. Os departamentos fiscal, contábil e financeiro precisam ser estruturados para operar em modo dual — mantendo a conformidade com as regras atuais enquanto constroem a capacidade de atender às novas obrigações. Isso implica revisão de rotinas, redistribuição de responsabilidades e, em muitos casos, contratação ou capacitação de profissionais especializados na nova legislação.

A terceira frente é tecnológica. As empresas precisam avaliar, junto aos seus fornecedores de software ou às suas equipes de tecnologia, a capacidade dos sistemas atuais de suportar as novas exigências. A integração com os sistemas do fisco para a nova escrituração do IBS e da CBS ainda está sendo definida em detalhes, mas as empresas que aguardarem a regulamentação completa para iniciar as adaptações tecnológicas estarão correndo contra o tempo — e o tempo, neste caso, é escasso.

Uma janela que se fecha a cada ano

A Reforma Tributária de 2026 é, por qualquer ângulo que se analise, a maior transformação do sistema tributário brasileiro em décadas. Sua implantação gradual até 2033 foi concebida justamente para dar tempo às empresas e aos fiscos de se adaptarem. Mas esse tempo tem um custo: sete anos de convivência entre dois sistemas, com toda a complexidade operacional e jurídica que isso implica.

Os dados das pesquisas da Deloitte, da KPMG e do levantamento publicado pela Folha de S.Paulo indicam que muitas empresas ainda não internalizaram a dimensão do desafio. Quase 60% preocupadas com a gestão simultânea dos sistemas, 24% sem qualquer simulação de impacto financeiro e dezenas de empresas com fragilidades operacionais mapeadas pela KPMG são números que não permitem otimismo fácil.

A janela de preparação está aberta, mas se fecha a cada ano que passa. Empresas que agissem em 2024 teriam mais tempo e mais margem para errar e corrigir. As que agem agora, em 2026, ainda têm condições de se preparar adequadamente — desde que não subestimem a complexidade do caminho. As que esperarem mais vão encontrar a curva mais fechada, o prazo mais curto e o custo de adaptação mais alto. Em reforma tributária, como em qualquer grande transformação, o preparo não é diferencial competitivo. É, simplesmente, condição de sobrevivência.

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  • September 25, 2026
  • 4:28 pm
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